Pastor associa autismo ao diabo em declaração e tem condenação mantida pela Justiça

Pastor associa autismo ao diabo e é condenado no PA

O caso em que o pastor associa autismo ao diabo voltou às manchetes em outubro de 2026, quando a Justiça do Pará confirmou, em segunda instância, a responsabilização de Washington Almeida, da Assembleia de Deus em Tucuruí.

A decisão fixou R$ 50 mil em danos morais coletivos — valor destinado a um fundo voltado a projetos ligados ao transtorno. Para quem convive com o autismo todos os dias, a notícia tem um peso que vai muito além do noticiário: ela diz respeito à dignidade e ao respeito devidos a milhões de famílias.

Mas, antes de entrar no mérito, é importante separar as coisas. Este texto não é sobre fé, nem sobre atacar religião alguma. É sobre informação correta — e sobre o estrago que a desinformação causa quando sai da boca de uma liderança respeitada, diante de uma plateia enorme.

O caso que o pastor associa autismo ao diabo: o que aconteceu

A fala ocorreu em 12 de julho de 2024, durante um evento comemorativo dos 90 anos da igreja em Tucuruí. No vídeo que viralizou, o pastor afirmou que “o diabo está visitando o ventre das desprotegidas” e associou o aumento de diagnósticos de autismo a uma suposta atuação demoníaca sobre mães “sem proteção espiritual”.

Repare na distância no tempo: a declaração é de 2024, mas a condenação em segunda instância só se consolidou agora, em 2026 — cerca de dois anos depois. Entre um ponto e outro, o pastor pediu desculpas publicamente, retirou o conteúdo das redes e, segundo a defesa, chegou a fazer um curso sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Essas medidas, inclusive, foram consideradas pelo tribunal para reduzir o valor da indenização.

Pastor associa autismo ao diabo em discurso que gerou condenação e revolta nas redes sociais
Representação simbólica de desinformação e preconceito associados ao transtorno. Foto: Reprodução

Por que a Justiça entendeu que houve dano

Na ação movida pelo Ministério Público, o promotor sustentou que atribuir a causa do autismo a uma “influência demoníaca”, num evento de grande porte e transmitido ao vivo, vai além do desrespeito: perpetua estigma e desinformação. A relatora do processo foi direta ao ponto. A liberdade religiosa — garantiu ela — assegura o direito à crença, ao culto e à manifestação de convicções, mas não isenta ninguém de responsabilização quando a fala viola direitos fundamentais de terceiros.

Em outras palavras: acreditar no que se quiser é um direito. Usar um púlpito para empurrar uma explicação falsa e humilhante sobre a origem de uma condição do neurodesenvolvimento é outra coisa — e tem consequências jurídicas.

Autismo não é obra do diabo: o que a ciência mostra

Aqui está o ponto que mais interessa às famílias. Autismo não é obra do diabo, não é castigo, não é “falta de fé” e não é resultado de nenhuma falha espiritual dos pais. O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento, e a ciência já reuniu evidências robustas sobre isso.

Estudos indicam que fatores genéticos respondem por cerca de 70% a 90% dos casos, segundo material de referência do Hospital Israelita Albert Einstein. Não existe um único “gene do autismo”: o que há é a combinação de múltiplos fatores genéticos, por vezes somados a fatores biológicos e ambientais que atuam ainda na gestação. A etiologia exata continua sendo estudada, mas o consenso é claro quanto ao que o autismo não é — uma questão de possessão ou maldição.

É por isso que um discurso como o do culto é tão perigoso. Ele não apenas ofende: ele empurra famílias para longe do diagnóstico precoce e da intervenção adequada, oferecendo “soluções” espirituais no lugar de acompanhamento profissional. E o diagnóstico precoce é justamente o que muda o prognóstico de uma criança autista.

Os números que desmontam o discurso

Quando o pastor sugeriu que “quase 30% das crianças” seriam autistas por influência demoníaca, ele errou nos dois sentidos: na causa e no número. Os dados reais existem e são públicos.

No Brasil, o Censo 2022 do IBGE — pela primeira vez investigando o tema — identificou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA, o equivalente a 1,2% da população. Nos Estados Unidos, o CDC aponta prevalência em torno de 1 a cada 31 crianças de 8 anos. São números relevantes, que refletem maior conhecimento, melhor diagnóstico e ampliação dos critérios — e não “ataque espiritual”.

Esses dados importam porque transformam o autismo em pauta de saúde pública e de direitos, não de misticismo. Cada número ali é uma pessoa com nome, rotina e potencial.

O que as famílias podem fazer diante de discursos assim

Se você é mãe, pai ou responsável e já ouviu algo parecido, saiba: a lei está do seu lado. A Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012) reconhece a pessoa com TEA como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais, e discriminar pessoa com deficiência é conduta que pode ser responsabilizada. O caso do pastor é a prova concreta disso funcionando na prática.

Alguns caminhos possíveis:

  • Não absorva a culpa. Nenhuma escolha sua “causou” o autismo do seu filho.
  • Busque informação de fonte confiável — serviços de saúde, universidades e órgãos oficiais, não boatos de redes sociais.
  • Registre e denuncie falas discriminatórias. Ministério Público e Defensoria Pública recebem esse tipo de manifestação.
  • Fortaleça sua rede. Grupos de apoio e associações de famílias fazem diferença no dia a dia.

Uma lição que fica

O caso do pastor condenado por associar autismo ao diabo deixa um recado que vale para além dos tribunais: palavras têm consequências, principalmente quando ditas de um lugar de autoridade. Informação correta é cuidado; desinformação é dano. E, enquanto houver famílias sendo responsabilizadas por uma condição que não escolheram e não causaram, repetir a verdade — com dados, com lei e com empatia — continua sendo um ato necessário.


Fontes

  • Folha de S.Paulo — “Pastor é condenado no Pará a pagar R$ 50 mil após associar autismo ao diabo” (23/10/2026).
  • O Globo — “Pastor é condenado em segunda instância a pagar R$ 50 mil por associar autismo ao diabo” (23/10/2026).
  • Hospital Israelita Albert Einstein — Glossário de Saúde: Transtorno do Espectro Autista (TEA).
  • IBGE — Censo Demográfico 2022: Pessoas com deficiência e autismo.
  • Brasil. Lei nº 12.764/2012 (Lei Berenice Piana) — Planalto.

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