Quando Ensinar Também é Aprender: Mãe Atípica e Professora de Educação Especial
Me chamo Ana Paula Lacerda. Há 18 anos sou formada em Pedagogia, com especialização em Educação Especial, TEA e Transtornos Globais, Psicopedagogia, Neuropsicopedagogia e Terapia ABA. Leciono em uma escola especializada em D.I. e TEA.
Há 16 anos me tornei mãe atípica. Desde então, minha trajetória como tem sido marcada por aprendizados, desafios e descobertas que nenhum conhecimento acadêmico poderia antecipar. Tive uma gestação normal, sem complicações, porém minha filha nasceu natimorta. Foi feita a ressuscitação, e o milagre da vida chegou como um presente divino à minha família. Passamos alguns dias no hospital, e foi então que as notórias dificuldades como mãe começaram a aparecer.
Entre o conhecimento acadêmico e a descoberta de uma mãe
Crises de convulsões, crises de ausência, uma pequena lâmpada começou a me chamar atenção, devido ao estudo acadêmico. Até seus 2 anos seguimos nesse ritmo, sempre vinculado ao fato da ressuscitação. Andar tardio, fala, olhares sempre vagos, aos 3 anos começou a falar, cantar, um alívio como mãe.
Aos 4 anos frequentando a escola, começou a ler, novamente algo chamou minha atenção, visto que a alfabetização começa por volta dos 5/ 6 anos. Isolamento social e a fala cessou. Vários acompanhamentos médicos, exames, e nada conclusivo.
Como mãe me negava a aceitar os sinais de autismo e que somente aos 10 anos recebi, o laudo do CID F84.0. Uma mescla de sentimentos, incluindo a negligência da suspeita e negação. Mas o alívio de finalmente obter tratamento e terapias aliadas corretamente.
Dos 10 aos 14 anos, novos episódios, mutilações, crises agudas, a adolescência entrando, mas no fundo não era apenas isso, transtornos de humor, compreensão nula de sentimentos, e novamente a busca por mais informações do que realmente era. Hoje, aos 16 anos temos além do TEA, o Transtorno Bipolar.
Quando ser mãe e professora se encontram
Ensinar não é fácil, estar em uma sala de aula não é fácil, mas a dura realidade de ensinar sentimentos que são tão comuns, é a tarefa mais difícil que já vivenciei até hoje.
A mescla de sentimentos que como mãe, espero ter, não existe, vem sendo construída a passos muito longo, a indiferença, o afeto, o amor, tudo que uma mãe espera, eu venho a anos ensinando, e pouquíssimos são os dias que recebo um sorriso, um afeto positivo.
Minha filha, o amor da minha vida, aliás minha vida, pois quando a atipicidade entra na família, apenas uma pessoa é o pilar e o vínculo. Ensinar a conviver em sociedade, a entender e aceitar o outro quando apenas o que sabem é o EU, é frustrante, pois para nós é automático.
Cada frustração dela, é a certeza que na sua compreensão sou a culpada, demorou muito até uma profissional me orientar que não! Eu não sou a culpada, eu sou a única no mundinho dela, capaz de aguentar, acalmar, aceitar quem ela é.
Acredito que agora começa a fazer sentido o verso que mencionei como título, pois, academicamente, tenho compreensão e sabedoria para conduzir um educando. Porém, como mãe atípica, a dor, o sentimento de solidão e o julgamento estão latentes. Ser mãe atípica me coloca diante de uma realidade em que o conhecimento profissional nem sempre é suficiente para lidar com os sentimentos que surgem dentro de casa.
Aprender os sentimentos de uma forma diferente
Gostaria de mencionar, que meu esposo, também com laudo de Transtorno Bipolar, é outra peça fundamental para a construção dos seus sentimentos, diferentemente, apresenta uma melhor compreensão que nossa filha, e ambos se entendem, é incrível ver a relação que ambos tem, o respeito pela compreensão e a não compreensão que possuem, falando como uma acadêmica nesse fato.

Durante as crises, ambos não sabem como se comportar para auxílio um do outro, apenas se olham, e foi aqui, que percebi como enxergar como ela aprende a entender os sentimentos, e com isso buscamos através de auxílio terapêutico os desenhos.
É através deles que estamos trabalhando, as expressões, sorrir, chorar, feliz, triste, que até então era tão indiferente.
Trabalhamos com espelhos, teatro, bonecas, e nada fazia sentido para ela, mas os desenhos foram abrindo leques, e grandiosamente a aprender os conteúdos pedagógicos.
A escola, as crises e a preocupação com o futuro
Minha filha, não apresenta habilidades para aprender de forma convencional, precisa estar desenhando para que escute o que lhe é ensinado, assim como não consegue assistir um filme, um desenho, sem estar desenhando.
E neste contexto que criamos aberturas de aprendizados e o maior causador das crises: A escola. Hoje se encontra em escola convencional publica, e claro que o sentimento de ódio, raiva foram aprendidos com todo louvor, pois sim, ela odeia ir a escola, odeia estar perto de pessoas, e aí mais um episódio, na minha vida começou, a manipulação, aprendeu a me manipular para não estar indo, aprendeu a fingir crises, os cortes aumentaram e minha frustração junto.
Não é fácil, trabalhar em uma mente tão peculiar, buscar métodos para compreender e reverter, ai entra o que mais prego junto as famílias dos meus educandos, não podemos ter pena, dó, não podemos deixar que nos manipulem, estamos criando e educando pessoas capazes, e muito capazes, apenas com um tempo diferente de compreensão.
Um dia é completamente diferente do outro, acordamos com as incertezas, mas acreditando que sempre será melhor que ontem. Ainda tenho uma longa caminhada a fazer, para que na minha ausência, minha filha possa ter o mínimo de compreensão e dignidade de sobreviver a um mundo que romantiza as pessoas neurodivergentes, mas que não agregam nada para que possam viver em igualdade.
Mãe Atípica X Professora de Educação Especial
Ao escolher a minha profissão, professora especializada em educação especial, jamais imaginária que o meu mundo se tornaria 3 turnos atípicos. Com todo conhecimento, especializações, criar, educar se tornaria um mundo completamente incompreensível. O vazio se torna presente, técnicas se tornam inviáveis, pois o vínculo mais forte entre mãe e filha, ultrapassa qualquer manejo inválido.
A razão vai contra os sentimentos, pois quando auxiliamos uma crise de um educando, com todo vínculo estabelecido, sua única meta é, fazer com que acabe aquele sofrimento, ali usamos o conhecimento acadêmico, terapêutico. Quando é sua filha, o pânico entra em cena, a sensação de incapacidade, a dor de uma mãe vendo e não possuir a capacidade de cessar para sempre.
Durante esses anos, sofri muito preconceito familiar, e socialmente, pois, em cada crise, vem a falácia de: – Como uma professora não consegue acalmar a própria filha, e consegue com seus educandos?
A questão é simples, nenhuma mãe vem preparada para tal demanda emocional, e pouco se falam em suportes para as famílias.
A terapia familiar é, de fato, uma das maiores aliadas para essa missão. Não somente para as pessoas atípicas, mas principalmente para educadores, mães e, especialmente, para quem vive diariamente os desafios de ser uma mãe atípica. Infelizmente, ainda faltam profissionais preparados e em quantidade suficiente para atender a essa demanda. Deixo como sugestão a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), uma abordagem da psicoterapia focada principalmente no presente, que pode ajudar a identificar e modificar padrões de pensamento e comportamento que causam sofrimento ou dificuldades no dia a dia de uma mãe atípica.
Essa terapia concilia família e pessoa atípica, trazendo a união entre o autoconhecimento e o mundo que nos cerca. Essa ferramenta vem auxiliando o meu processo profissional, pois levo aos pais dos educandos orientações sobre como abordá-los e conduzi-los, e também tem sido importante na minha própria caminhada como mãe atípica. Afinal, compreender o outro também é uma forma de aprender a compreender a nós mesmos diante dos desafios que encontramos diariamente.
Finalizo com o pensamento muito próspero a si e aos outros, jamais desista de si e da capacidade de seu filho TEA, como educadora, cada dia vejo passos de formiguinhas avançando, com um trabalho árduo de credibilidade no potencial dormente, como mãe, dedico todos os dias mostrando a capacidade de voos longos que a minha filha é capaz de alcançar.

É muito sofrimento